Caso clínico do mês – Agosto/2025
PÓLIPO FIBROEPITELIAL ANAL: QUE ABORDAGEM TERAPÊUTICA?
Catarina Araújo 1, Rosa Coelho1, Ana Marques2, Guilherme Macedo1
1-Departamento de Gastrenterologia, Centro Hospitalar de São João
2-Departamento de Anatomia Patológica, Centro Hospitalar de São João
CASO CLÍNICO:
Paciente do sexo feminino, 35 anos, sem antecedentes pessoais de relevo, referenciada à consulta de Proctologia por referir exteriorização de uma lesão anal durante a evacuação, associada a sensação de corpo estranho e prurido anal. Negava perdas hemáticas ou outras queixas proctológicas. À anuscopia, identificou-se lesão polipóide, pediculada com aspeto macroscópico sugestivo de se tratar de uma lesão benigna, com cerca de 80 mm, com provável origem na linha dentada.
Perante o caso clínico descrito, qual a conduta mais adequada?
- Vigilância clínica regular com nova anuscopia em 6 meses
- Início de venotónico
- Realização de biopsia incisional
- Excisão da lesão
Resposta D
Após discussão com a paciente sobre possíveis abordagens (cirúrgica vs endoscópica), optou-se por polipectomia da lesão por via externa. O procedimento foi executado com exteriorização manual do pólipo visualizado previamente por retosigmoidoscopia, com colocação de um endoloop na base da lesão (imagem B), seguida de injeção de lidocaína no pedículo para controlo álgico, e posterior excisão (imagem C e D) com ansa diatérmica.
A polipectomia decorreu sem intercorrências. A paciente não apresentou desconforto e referiu na consulta de reavaliação resolução completa das queixas proctológicas após realização do procedimento descrito (imagem E).
O exame histopatológico identificou lesão de configuração polipóide constituída por proliferação de tecido conjuntivo fibroso revestida por epitélio pavimentoso estratificado sem displasia ou sinais de malignidade (Imagens F e G), confirmando o diagnóstico de pólipo fibroepitelial.
F
G 
DISCUSSÃO:
Os pólipos fibroepiteliais do ânus originam-se da linha dentada, na junção entre o epitélio anal e a pele, sendo achados frequentes, observados em cerca de 45% dos pacientes submetidos a exame proctológico. Representam lesões benignas, geralmente pequenas e assintomáticas, frequentemente associadas à hipertrofia das papilas anais ou à presença de hemorróidas internas [1].
Contudo, quando atingem dimensões consideráveis e se tornam prolapsados ou sintomáticos, colocam desafios colocam desafios no diagnóstico diferencial e na escolha terapêutica, conforme ilustrado no presente caso. A escolha da abordagem terapêutica deve ter em conta a localização, o tamanho da lesão e a presença de sintomas.
A excisão endoscópica interna constitui a técnica mais frequentemente utilizada, frequentemente utilizada em casos de lesões pequenas e internas. Trata-se de uma abordagem minimamente invasiva, mas com eficácia limitada em casos de lesões volumosas e prolapsadas [2]. A resseção cirúrgica, por outro lado, está associada a maior morbilidade e risco de complicações locais, sendo considerada o padrão-ouro em lesões fixas, extensas ou com suspeita de malignidade.
No caso aqui descrito, a excisão por via externa revelou-se uma alternativa viável na presença de lesão volumosa com prolapso total. Esta abordagem permite manipulação direta sob anestesia local, aplicação de endoloop como medida profilática de hemorragia tardia e remoção completa da lesão, com bom controlo sintomático e baixo risco de complicações.
CONCLUSÃO
O pólipo fibroepitelial anal é uma entidade benigna cuja abordagem terapêutica deve ser individualizada. A polipectomia por via externa demonstrou ser uma alternativa eficaz, segura e minimamente invasiva em casos de lesões volumosas e sintomáticas, como o aqui apresentado. Este caso sublinha a importância de adaptar a estratégia terapêutica às características morfológicas e funcionais da lesão, visando o melhor resultado clínico com o menor impacto possível para o paciente.
REFERÊNCIAS:
1. Groisman, G.M. and S. Polak-Charcon, Fibroepithelial Polyps of the Anus: A Histologic, Immunohistochemical, and Ultrastructural Study, Including Comparison With the Normal Anal Subepithelial Layer. The American Journal of Surgical Pathology, 1998. 22(1): p. 70-76.
2. Yang, T.-W., C.-C. Wang, and C.-C. Lin, A Symptomatic Anorectal Polyp. Gastroenterology, 2015. 148(2): p. 298-299.