Budzyń K. et al. Endoscopist deskilling risk after exposure to artificial intelligence in colonoscopy: a multicentre, observational study. Lancet Gastroenterol Hepatol. 2025 Sep 11:S2468-1253(25)00294-8. DOI: 10.1016/S2468-1253(25)00133-5 Na colonoscopia a taxa de deteção de adenomas (ADR) é um indicador de qualidade, associado à redução do cancro colorretal. Nos últimos anos, os sistemas de deteção assistidos por inteligência artificial (IA) mostraram aumentar a ADR. Contudo, permanece pouco claro se a exposição continuada à IA altera o desempenho do endoscopista quando a tecnologia não está disponível, levantando a preocupação de perda de competências. Neste artigo publicado na Lancet Gastroenterology and Hepatology em agosto de 2025, é avaliado se a exposição contínua a sistemas de IA para deteção de pólipos altera o desempenho dos endoscopistas quando a colonoscopia é realizada sem IA. Através de um estudo multicêntrico, retrospetivo, observacional, realizado em quatro centros polacos inseridos no projeto ACCEPT, os autores compararam os resultados das colonoscopias realizadas nos 3 meses prévios vs. 3 meses pós implementação da IA (final de 2021). Foram incluídas as colonoscopias diagnósticas sem IA. O outcome primário foi a variação da ADR. Nas 1443 colonoscopias elegíveis, houve uma significativa redução da ADR de 28,4% para 22,4% no período pós‑IA, correspondendo a uma diferença absoluta de -6% (IC 95% -10,5 – -1,6; p=0·0089). Esta associação manteve‑se após análise multivariável, sugerindo um possível fenómeno de “deskilling” induzido por dependência da IA (OR 0,69; IC 95% 0,53 – 0,89). Não houve diferença estatisticamente significativa na deteção de adenomas avançados por colonoscopia. No entanto é de salientar relevantes limitações ao estudo, como o desenho retrospetivo; janela curta; possíveis diferenças de casuística (idade, sexo, indicação) entre períodos e fatores não medidos que impactam a ADR (tempo de retirada, qualidade da preparação intestinal, sedação, modelo do colonoscópio/IA, experiência da equipa e carga assistencial). Ainda assim, o trabalho alerta para um efeito realista de dependência da IA. Em termos práticos, os autores levantam a hipótese de que a exposição continuada a alertas visuais e auditivos possa reduzir a vigilância ativa quando esses auxiliares não estão presentes. Recomenda‑se uma monitorização contínua da ADR e treino que preserve competências nucleares quando a IA não está disponível. São necessários estudos prospetivos, idealmente randomizados, para confirmar o efeito, clarificar mecanismos e se necessário definir estratégias de mitigação deste fenómeno de “deskilling” dos endoscopistas com a utilização da IA. Rafaela Loureiro
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