SÓCIOS
Setembro 2025

ARTIGOS DO MÊS

"A word of caution in the functional monitoring of patients after rectal cancer surgery" aborda a problemática da insuficiente monitorização funcional de doentes submetidos a cirurgia de resseção anterior do reto com excisão completa do mesorreto.  Apesar das alterações significativas em número e gravidade nas funções urinária, sexual e digestiva que este grupo de doentes apresenta após cirurgia, essas questões não estão devidamente integradas nos protocolos de acompanhamento pós-operatório. 

A pesquisa, realizada em seis hospitais terciários na Espanha, revelou que apenas 46,4% dos doentes tiveram dados registados sobre padrões de evacuação e apenas 20,3% completaram questionários relacionados às sequelas funcionais, como a Síndrome da Reseção Anterior Baixa (LARS). Além disso, apenas 43,9% tiveram a sua qualidade de vida avaliada, evidenciando uma grave lacuna na prática clínica.

Os autores concluem que é essencial implementar um protocolo de acompanhamento pós-operatório mais rigoroso e utilizar tecnologias como Medidas de Resultado Relatadas pelo Paciente (PROMs) para garantir que as repercussões funcionais sejam adequadamente avaliadas. A falta de atenção a essas questões pode levar a um desconhecimento quase completo de sintomas relacionados com o tratamento do cancro do reto que estes doentes apresentam, levando a que muitos sofram, sem que se tente identificar e minimizar as sequelas da terapêutica instituída.
 
Este foi o artigo selecionado porque analisa um problema idêntico ao que acontece na maioria dos hospitais portugueses, servindo como alerta para a necessidade de implementarmos protocolos específicos, de forma a avaliarmos a incidência e gravidade deste assunto, com a finalidade de instituirmos medidas que minimizem a sua presença, contribuindo para a melhoria da nossa prática clínica. “
 
Marisa Santos

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Budzyń K. et al. Endoscopist deskilling risk after exposure to artificial intelligence in colonoscopy: a multicentre, observational study. Lancet Gastroenterol Hepatol. 2025 Sep 11:S2468-1253(25)00294-8. DOI: 10.1016/S2468-1253(25)00133-5
 
Na colonoscopia a taxa de deteção de adenomas (ADR) é um indicador de qualidade, associado à redução do cancro colorretal. Nos últimos anos, os sistemas de deteção assistidos por inteligência artificial (IA) mostraram aumentar a ADR. Contudo, permanece pouco claro se a exposição continuada à IA altera o desempenho do endoscopista quando a tecnologia não está disponível, levantando a preocupação de perda de competências.
Neste artigo publicado na Lancet Gastroenterology and Hepatology em agosto de 2025, é avaliado se a exposição contínua a sistemas de IA para deteção de pólipos altera o desempenho dos endoscopistas quando a colonoscopia é realizada sem IA.

Através de um estudo multicêntrico, retrospetivo, observacional, realizado em quatro centros polacos inseridos no projeto ACCEPT, os autores compararam os resultados das colonoscopias realizadas nos 3 meses prévios vs. 3 meses pós implementação da IA (final de 2021). Foram incluídas as colonoscopias diagnósticas sem IA. O outcome primário foi a variação da ADR.

Nas 1443 colonoscopias elegíveis, houve uma significativa redução da ADR de 28,4% para 22,4% no período pós‑IA, correspondendo a uma diferença absoluta de -6% (IC 95% -10,5 – -1,6; p=0·0089). Esta associação manteve‑se após análise multivariável, sugerindo um possível fenómeno de “deskilling” induzido por dependência da IA (OR 0,69; IC 95% 0,53 – 0,89). Não houve diferença estatisticamente significativa na deteção de adenomas avançados por colonoscopia.

No entanto é de salientar relevantes limitações ao estudo, como o desenho retrospetivo; janela curta; possíveis diferenças de casuística (idade, sexo, indicação) entre períodos e fatores não medidos que impactam a ADR (tempo de retirada, qualidade da preparação intestinal, sedação, modelo do colonoscópio/IA, experiência da equipa e carga assistencial).

Ainda assim, o trabalho alerta para um efeito realista de dependência da IA.  Em termos práticos, os autores levantam a hipótese de que a exposição continuada a alertas visuais e auditivos possa reduzir a vigilância ativa quando esses auxiliares não estão presentes.
Recomenda‑se uma monitorização contínua da ADR e treino que preserve competências nucleares quando a IA não está disponível.

São necessários estudos prospetivos, idealmente randomizados, para confirmar o efeito, clarificar mecanismos e se necessário definir estratégias de mitigação deste fenómeno de “deskilling” dos endoscopistas com a utilização da IA.

Rafaela Loureiro

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