SÓCIOS
Outubro 2025

ARTIGOS DO MÊS

O'Sullivan T, Cronin O, van Hattem WA, Mandarino FV, Gauci JL, Kerrison C, Whitfield A, Gupta S, Lee E, Williams SJ, Burgess N, Bourke MJ. Cold versus hot snare endoscopic mucosal resection for large (≥15 mm) flat non-pedunculated colorectal polyps: a randomised controlled trial. Gut. 2024 Oct 7;73(11):1823-1830. doi: 10.1136/gutjnl-2024-332807. PMID: 38964854.
 
A abordagem de lesões colorretais por mucosectomia tem sido questionada pela superior taxa de recidiva, difícil avaliação histológica da peça de resseção e necessidade de múltiplas reavaliações endoscópicas quando comparada à disseção endoscópica da submucosa. No entanto, por permitir uma menor duração do procedimento e se tratar de uma intervenção com menores taxas de complicações, a sua aplicação é legítima em lesões colorretais cuja morfologia e padrão de superfície permitam estimar uma baixa probabilidade de invasão profunda da submucosa.

O interesse em técnicas de mucosectomia sem passagem de corrente tem aumentado, por se associar a uma menor taxa de eventos adversos, sem aparentemente ter impacto negativo na qualidade da resseção endoscópica.

Este estudo clínico randomizado, publicado na revista Gut, comparou a excisão de pólipos colorretais adenomatosos não pediculados com dimensão superior a 15mm por mucosectomia endoscópica com ansa diatérmica versus ansa a frio. Em ambos os grupos, foi realizada termoablação das margens após a resseção. O outcome primário estabelecido foi a taxa de recidiva na reavaliação endoscópica aos 6 meses após o procedimento índex. Como outcomes secundários, os autores definiram a taxa de sucesso técnico e a taxa de complicações associadas ao procedimento.

A taxa de sucesso técnico, definida como a ausência de lesão por visão endoscópica no final da intervenção, foi semelhante nos dois grupos. As perfurações tardias foram observadas apenas no grupo da ansa diatérmica, sendo que este grupo foi também associado a maior taxa de hemorragia pós procedimento. Em contrapartida, apresentou uma taxa de recidiva significativamente inferior na reavaliação endoscópica aos 6 meses.

Perante estes resultados, os autores concluíram que a realização de mucosectomia a frio de pólipos colorretais adenomatosos não pediculados com dimensão superior a 15mm, apesar de se tratar de um procedimento com menor risco de eventos adversos, apresenta uma maior taxa de recidiva, sendo, atualmente, uma limitação desta técnica.
 
Henrique Costa Coelho, Ana Maria Oliveira

Neoadjuvant Radiotherapy vs Up-Front Surgery for Resectable Locally Advanced Rectal Cancer

Po-Chuan Chen, MD; Avery Shuei-He Yang, MS; Alessandro Fichera, MD; Mu-Hung Tsai, MD; Yuan-HuaWu, MD; Yu-Min Yeh, MD, PhD; Yu Shyr, PhD; Edward Chia-Cheng Lai, PhD; Chao-Han Lai, MD, PhD
JAMA Network Open. 2025;8(5):e259049. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.9049


Atualmente as linhas orientadoras para o tratamento do cancro do reto localmente avançado ressecável (RLARC), advogam que a abordagem terapêutica deve constar de radioquimioterapia neoadjuvante seguida de cirurgia ou vigilância, se for obtida uma remissão clínica completa. Motivados pela vontade de melhorar o controlo oncológico local, a maior parte dos grupos de trabalho propõe este procedimento para RLARC em qualquer localização no reto.

No entanto, trabalhos recentes, reportaram não haver benefício oncológico, com esta estratégia, para os tumores localizados no 1/3 superior do reto, já que não há evidencia de benefícios na sobrevivência global (OS) e/ou livre de doença (DFS), bem como na taxa de recorrência local (LR). Sendo de assinalar que as consequências negativas da radioterapia não são negligenciáveis.

Este trabalho avalia um total de 4099 doentes com RLARC (cT1-2 N1-2, cT3 Nqualquer), sendo 1436 orientados para Radioterapia neoadjuvante e 2663 orientados diretamente para cirurgia.

Concluem que a radiopterapia neoadjuvante seguida de cirurgia não esteve associada a melhoria da OS ou da LR nos doentes com tumores do 1/3 superior do reto. O mesmo não é verdade para os doentes com tumores localizados ao 1/3 médio e/ou inferior.

Associadamente foi evidente que os doentes submetidos a radioterapia antes da cirurgia, tiveram maior probabilidade de terem um estoma derivativo, independentemente da localização do tumor no reto. Curiosamente, o risco de construção de estoma derivativo, comparando os doentes com radioterapia prévia á cirurgia com os doentes em que a cirurgia foi o tratamento inicial, foi maior nos doentes com tumores do 1/3 superior. Também o risco de estoma permanente, aos 3 anos de follow-up, foi maior nos doentes com tumores do terço superior do reto.

Nos tumores do 1/3 superior do reto, o uso de radioterapia neoadjuvante, com o objetivo de obter melhores resultados oncológicos e realização de estomas derivativos para minimizar o risco de fístulas/deiscências sintomáticas, pode não se justificar.

Estes achados devem conduzir-nos a uma reflexão acerca de um potencial sobretratamento e dano da radioterapia neoadjuvante, e levar seriamente em consideração a importância de considerar a localização do tumor quando estivermos perante um doente com RLARC. 

Alexandre Duarte

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