SÓCIOS
Novembro 2025

ARTIGOS DO MÊS

 O seguimento prolongado de 7 anos do PRODIGE-23 confirma que a indução com mFOLFIRINOX seguida de CRT traduz-se no benefício precoce em redução de metastização, agora com ganho claro de sobrevida global aos 7 anos (81.9% vs 76.1%), um marco não alcançado por outras estratégias de TNT. O efeito é consistente, sem agravamento do controlo local, e sem fenómeno ATRESS, ao contrário do observado no RAPIDO. A magnitude do benefício, embora moderada, é clinicamente relevante numa doença cujo principal problema continua a ser a metastização. O perfil de segurança mantém-se aceitável, com elevada adesão ao esquema terapêutico e qualidade de vida preservada.
Na prática clínica, estes dados consolidam o mFOLFIRINOX como uma das melhores opções para LARC T3-4, sobretudo em doentes jovens/fit e com alto risco de metastização.
 
Carlos Leichsenring
 

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Artigo:
Isolated perianal Crohn's disease: a systematic review and expert consensus proposing novel diagnostic criteria and management advice.
 
Hanna LN, Munster LJ, Joshi S, Wendelien van der Bilt JD, Buskens CJ, Hart A, Tozer
P. Lancet Gastroenterol Hepatol. 2025;10(8):757-768. Epub 2025-04-29
doi: 10.1016/S2468-1253(25)00007-X
 
Comentário
A doença perianal na doença de Crohn representa um dos maiores desafios em coloproctologia, sobretudo quando se apresenta de forma aparentemente isolada, sem inflamação luminal evidente. Neste contexto, este estudo procura definir de forma estruturada o conceito de “Doença de Crohn perianal isolada”, combinando uma revisão sistemática da literatura com um processo de consenso multidisciplinar.
Os autores sintetizam as características clínicas, imagiológicas e histológicas mais frequentemente associadas à doença de Crohn perianal isolada, propondo um conjunto de critérios diagnósticos e um algoritmo de abordagem.
 
Este enquadramento permite reclassificar uma proporção não negligenciável de casos até agora considerados como fístulas criptoglandulares complexas, abrindo espaço à instituição mais precoce de terapêutica médica dirigida à doença inflamatória intestinal, associada à estratégia cirúrgica.
 
Um aspeto relevante foi a aplicação prospetiva dos critérios numa coorte de 50 doentes com fístula perianal sem doença luminal conhecida, na qual cerca de 12% preencheram critérios de doença de Crohn perianal isolada. Apesar do número limitado, estes dados sugerem que a entidade poderá estar subdiagnosticada e reforçam a importância de uma avaliação sistemática com ressonância magnética dedicada e estudo endoscópico completo, idealmente em contexto multidisciplinar.
 
Os autores também propõem que, nos casos em que se suspeita de doença de Crohn exclusivamente perianal e após excluída a inflamação luminal, possa ser considerado o uso de anti-TNF, preferencialmente em contexto de decisão multidisciplinar.
 
A qualidade global da evidência permanece moderada a baixa, e muitos dos pontos do algoritmo assentam ainda em opinião de peritos, carecendo de validação externa. Ainda assim, este trabalho constitui um contributo importante para uniformizar a linguagem e o raciocínio na abordagem das fístulas perianais complexas e deverá, provavelmente, influenciar futuras recomendações e o desenho de estudos prospetivos nesta área.
 
Pedro Campelo

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