SÓCIOS
Junho 2025

ARTIGOS DO MÊS

A incidência de infeção pós-operatória da ferida cirúrgica pode chegar a 22,5%, um dado estatístico especialmente preocupante dada a prevalência de câncer colorretal. 
As diretrizes de “recuperação melhorada após a cirurgia” (ERAS) influenciaram positivamente os resultados pós-operatórios em pacientes submetidos à cirurgia colorretal, recomendando protocolos de cuidados pré-operatórios, intraoperatórios e pós-operatórios especificamente destinados a reduzir a morbilidade e acelerar a recuperação pós-operatória.

As orientações atuais do programa ERAS para cirurgia colorretal eletiva recomendam a triagem nutricional pré-operatória e a suplementação nutricional pré-operatória com base em evidências de baixa e moderada certeza. No entanto, as abordagens para otimização nutricional pré-operatória são variáveis, sem nenhuma evidência, uniformemente recomendada.
Os produtos de imunonutrição, compostos de arginina, ácidos graxos ômega-3, glutamina e / ou nucleotídeos, são frequentemente anunciados como agentes eficazes para reduzir os resultados clínicos negativos, como infeção e inflamação, entre pacientes com câncer colorretal.

Este estudo, teve como objetivo atualizar e comparar pacientes adultos que recebem imunonutrição enteral antes da cirurgia colorretal eletiva com aqueles que recebem nutrição pré-operatória convencional.
A pesquisa, dos bancos de dados de MEDLINE, Embase e Cochrane Central Register of Controlled Trials até março de 2024, permitiu incluir para revisão, 2508 citações relevantes, tendo sido analisados 10 estudos que preencheram os critérios de inclusão. No geral, 1521 pacientes (idade média de 64,9 ± 10,0 anos, 49,4% mulheres) receberam imunonutrição pré-operatória e 1816 pacientes (idade média de 64,1 ± 11,0 anos, 52,1% mulheres) receberam nutrição pré-operatória convencional.

Embora os estudos tenham começado a explorar o papel da imunonutrição nos cuidados pré-operatórios, demonstrando segurança e eficácia, a imunonutrição ainda não se tornou o padrão de tratamento para cirurgia eletiva de câncer colorretal. 
Apesar das estimativas pontuais apontem para um provável benefício associado à imunonutrição enteral pré-operatória, os ICs de 95% correspondentes, sugerem que a incerteza permanece, no entanto, este artigo acrescenta á discussão itens de que seguramente acrescentam valor para a discussão da nutrição no pré-operatório.
 
António Oliveira

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Hart, A., Miller, L., Büttner, F.C. et al. Fatigue, pain and faecal incontinence in adult inflammatory bowel disease patients and the unmet need: a national cross-sectional survey. BMC Gastroenterol 24, 481 (2024). https://doi.org/10.1186/s12876-024-03570-
 
Open access

https://bmcgastroenterol.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12876-024-03570-8
 
Comentário
Apesar dos avanços terapêuticos na doença inflamatória intestinal (DII), quer na doença de Crohn como na colite ulcerosa, sintomas funcionais persistentes como a fadiga, a dor e a incontinência fecal continuam a impactar negativamente na qualidade de vida destes doentes e na sua saúde mental.
O artigo sugerido aborda precisamente esta temática. Trata-se de um estudo transversal baseado num inquérito on-line, realizado no Reino Unido, envolvendo 8.486 adultos com DII, em que foi avaliada a prevalência, intensidade, impacto e correlações psicossociais da fadiga, dor e incontinência fecal

Embora com algumas limitações devido ao desenho do estudo e a recolha de dados, os resultados mostraram-se interessantes. Considero que este estudo contribui para o enriquecimento da prática clínica e chama a atenção para uma abordagem centrada no doente, orientada para a melhoria da qualidade de vida também importante para além do controlo da doença inflamatória intestinal.

Assim, a identificação sistemática da fadiga, da dor e da incontinência fecal bem como o rastreio das comorbilidades psicológicas, deve ser integrada na prática clínica assistencial para alem da avaliação da atividade inflamatória da DII. Esta estratégia pode melhorar significativamente a qualidade de vida dos doentes e orientar intervenções personalizadas numa abordagem multidisciplinar incluindo a reabilitação pélvica e apoio psicológico.
 
Sandra Pires
 
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