SÓCIOS
Julho 2025

ARTIGOS DO MÊS

Artigo
Van Hul M, Cani PD, Petitfils C, De Vos WM, Tilg H, El-Omar EM. What defines a healthy gut microbiome? Gut. 2024 Oct 7;73(11):1893-1908. doi: 10.1136/gutjnl-2024-333378. PMID: 39322314; PMCID: PMC11503168.
 


Este artigo de revisão, publicado no Gut em 2024, aborda o microbioma intestinal e as relações bidirecionais que a sua atividade funcional pode estabelecer com a saúde e a doença.

Os autores questionam as definições tradicionais de disbiose, bem como o próprio conceito de “pessoa saudável”.

A composição da microbiota intestinal está indiscutivelmente associada à saúde do hospedeiro, segundo a evidência científica atual. No entanto, continua a ser difícil definir de forma precisa o que é saúde intestinal, dada a complexidade envolvida na avaliação funcional do intestino. Da mesma forma, a definição de uma microbiota intestinal “normal” também é desafiante, uma vez que se trata de um ecossistema dinâmico composto por bactérias, fungos, vírus e archaea, cujos genes e produtos metabólicos (isto é, o microbioma) variam entre indivíduos e ao longo do tempo.

Avanços recentes nas ciências básicas permitiram descrever que a composição da microbiota é modulada por diversos fatores, incluindo genética, idade, sexo, via de parto, estilo de vida, dieta, exposição a poluentes e medicamentos (com destaque para os antibióticos), entre outros.

Os autores revisam os diferentes critérios que têm sido propostos como marcadores de uma microbiota intestinal saudável, discutindo suas vantagens e limitações. São destacados quatro pilares: diversidade, composição, funcionalidade metabólica e resiliência ecológica. Além disso, consideram-se outros marcadores funcionais, como a produção de metabolitos (ex.: ácidos gordos de cadeia curta e ácidos biliares), biomarcadores fecais de inflamação (como calprotectina e lactoferrina), e parâmetros associados à integridade da barreira intestinal, como o pH e a permeabilidade.

Os autores concluem que, apesar dos avanços significativos na investigação do microbioma intestinal, a definição de uma microbiota saudável continua a ser um grande desafio. Enfatizam a necessidade de continuar a investigação científica com o objetivo de clarificar conceitos e desenvolver metodologias mais precisas, inclusivas e reprodutíveis.
 
Paula Ministro

 

Nos últimos anos, a cirurgia com abordagem robótica para o tratamento do cancro do reto tem sido progressivamente adotada, na expetativa de resultados não inferiores aos da abordagem laparoscópica, fundamentada na ergonomia e precisão superiores. Contudo, mantém-se incerto se o progresso nas técnicas minimamente invasivas tem impacto positivo nos resultados oncológicos e funcionais.


O artigo "Robotic vs Laparoscopic Surgery for Middle and Low Rectal Cancer" (REAL trial), publicado recentemente na JAMA, constitui um marco relevante na avaliação comparativa de longo prazo entre cirurgia robótica e laparoscópica para o tratamento do cancro do reto médio e baixo. Este ensaio clínico multicêntrico, randomizado, com mais de 1200 doentes, demonstrou uma redução estatisticamente significativa na taxa de recorrência local aos 3 anos no grupo da cirurgia robótica (1,6% vs. 4,0%; HR ajustado 0,39), bem como uma melhoria significativa na sobrevivência livre de doença (87,2% vs. 83,4%). Adicionalmente, os resultados funcionais também favorecem a abordagem robótica, com melhor recuperação das funções intestinal e geniturinária, sobretudo nos primeiros 6 meses pós-operatórios. A robustez metodológica, o tamanho da amostra e o seguimento adequado, entre outros, conferem solidez aos achados.

Contudo, apesar dos resultados promissores, o estudo apresenta algumas limitações relevantes. A heterogeneidade nos protocolos perioperatórios entre os centros pode introduzir variabilidade no tratamento adjuvante, quando indicado. Adicionalmente, a exclusão da imunoterapia como parte do tratamento neoadjuvante condiciona a aplicabilidade dos resultados em contextos clínicos mais atuais. Importa ainda realçar o viés potencial decorrente da concentração dos procedimentos num número relativamente restrito de cirurgiões, bem como a limitação da generalização dos resultados a populações não asiáticas. Embora os autores tenham realizado análises de subgrupos com o intuito de mitigar alguns destes potenciais fatores de confundimento, a extrapolação internacional deve ser realizada com prudência.

 

Em suma, o estudo REAL fornece evidência robusta de que a cirurgia robótica é superior à abordagem laparoscópica convencional no tratamento do cancro do reto médio e baixo, demonstrando vantagens oncológicas e funcionais. No entanto, a interpretação dos resultados deve considerar as limitações metodológicas e contextuais do estudo.

 

Nuno Rama, MD PhD

Assistente Graduado de Cirurgia Geral na ULS Coimbra / Serviço de Cirurgia Geral / Centro de Referência de Cancro do Reto do Adulto

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