Nos últimos anos, a cirurgia com abordagem robótica para o tratamento do cancro do reto tem sido progressivamente adotada, na expetativa de resultados não inferiores aos da abordagem laparoscópica, fundamentada na ergonomia e precisão superiores. Contudo, mantém-se incerto se o progresso nas técnicas minimamente invasivas tem impacto positivo nos resultados oncológicos e funcionais.
O artigo "Robotic vs Laparoscopic Surgery for Middle and Low Rectal Cancer" (REAL trial), publicado recentemente na JAMA, constitui um marco relevante na avaliação comparativa de longo prazo entre cirurgia robótica e laparoscópica para o tratamento do cancro do reto médio e baixo. Este ensaio clínico multicêntrico, randomizado, com mais de 1200 doentes, demonstrou uma redução estatisticamente significativa na taxa de recorrência local aos 3 anos no grupo da cirurgia robótica (1,6% vs. 4,0%; HR ajustado 0,39), bem como uma melhoria significativa na sobrevivência livre de doença (87,2% vs. 83,4%). Adicionalmente, os resultados funcionais também favorecem a abordagem robótica, com melhor recuperação das funções intestinal e geniturinária, sobretudo nos primeiros 6 meses pós-operatórios. A robustez metodológica, o tamanho da amostra e o seguimento adequado, entre outros, conferem solidez aos achados.
Contudo, apesar dos resultados promissores, o estudo apresenta algumas limitações relevantes. A heterogeneidade nos protocolos perioperatórios entre os centros pode introduzir variabilidade no tratamento adjuvante, quando indicado. Adicionalmente, a exclusão da imunoterapia como parte do tratamento neoadjuvante condiciona a aplicabilidade dos resultados em contextos clínicos mais atuais. Importa ainda realçar o viés potencial decorrente da concentração dos procedimentos num número relativamente restrito de cirurgiões, bem como a limitação da generalização dos resultados a populações não asiáticas. Embora os autores tenham realizado análises de subgrupos com o intuito de mitigar alguns destes potenciais fatores de confundimento, a extrapolação internacional deve ser realizada com prudência.
Em suma, o estudo REAL fornece evidência robusta de que a cirurgia robótica é superior à abordagem laparoscópica convencional no tratamento do cancro do reto médio e baixo, demonstrando vantagens oncológicas e funcionais. No entanto, a interpretação dos resultados deve considerar as limitações metodológicas e contextuais do estudo.
Nuno Rama, MD PhD
Assistente Graduado de Cirurgia Geral na ULS Coimbra / Serviço de Cirurgia Geral / Centro de Referência de Cancro do Reto do Adulto