SÓCIOS
Janeiro 2026

Artigos do Mês – Janeiro 2026

British Society of Gastroenterology guidelines on colorectal surveillance in inflammatory bowel disease

James Edward East, Morris Gordon, Gaurav Bhaskar Nigam, Vassiliki Sinopoulou, Adrian C Bateman, Shahida Din, Marietta Iacucci, Misha Kabir, Christopher Andrew Lamb, Ana Wilson, Ibrahim Al Bakir, Anjan Dhar, Sunil Dolwani, Omar Faiz, Ailsa Hart, Bu’Hussain Hayee, Chris Healey, Simon John Leedham, Marco R Novelli, Tim Raine, Matthew D Rutter, Neil A Shepherd, Venkataraman Subramanian, Margaret Vance, Ruth Wakeman, Lydia White, Nigel J Trudgill, A John Morris.
East JE, et al. Gut 2025;0:1–34. doi:10.1136/gutjnl-2025-335023
 
Os doentes com doença inflamatória intestinal (DII) apresentam um risco de cancro colorretal (CCR) 1,4 a 1,7 vezes superior à população sem DII. O risco de CCR na DII é cumulativo e aumenta com a duração da doença: 0,8% nos primeiros 10 anos, 2,2% entre 10-20 anos e 4,4% quando superior a 20 anos de doença.

A vigilância endoscópica reduz o risco de desenvolver CCR e reduz a respetiva mortalidade, porque permite o diagnóstico de CCR em estádios mais precoces. Atualmente, a taxa de diagnóstico de CCR em doentes DII é menor face há 20 anos atrás, o que se deve ao melhor controlo da inflamação e de outros fatores de risco, bem como pela implementação de programas de vigilância.

Comparativamente com as recomendações previamente publicadas, estas recomendações destacam que os 3 anos são o intervalo mínimo de vigilância para prevenir eficazmente o CCR associado a DII e a morte relacionada com CCR nestes doentes. Esta atualização tem por base uma revisão da Cochrane que demonstrou que a vigilância em intervalos menores ou iguais a 3 anos reduz o desenvolvimento de CCR em 1/3 e a morte por CCR em 2/3 comparativamente com os que  que foram incluídos em intervalos de vigilância superiores a 3 anos ou que não realizaram vigilância. Parece que a via molecular e genética do desenvolvimento de CCR na DII é diferente dos CCR esporádicos, sendo que a sequência inflamação-displasia-cancro é francamente acelerada.

Os intervalos de vigilância podem ser determinados segundo a via clássica (avaliação de fatores de risco) ou utilizando uma ferramenta/calculadora de risco multivariada. Em relação aos fatores de risco,  uma atualização em relação às recomendações prévias, é que a historia de CCR em familiar de primeiro grau é considerada associada a um baixo risco de CCR, independentemente da idade do familiar, pelo que o intervalo de vigilância se só esse fator estiver presente deve ser os 3 anos.
Os grupos de risco e abordagem sugeridos neste artigo são:

Elevado risco: deve ser considerada a colectomia total em discussão multidisciplinar, em doentes com pelo menos um de:

- risco de CCR aos 5 anos calculado > 14.4%;
- inflamação ativa severa (endoscópica/histológica) após otimização da terapêutica médica.
 
 
Moderado risco: deve ser realizada colonoscopia anual, nos doentes com pelo menos um de:

- risco de CCR aos 5 anos calculado de 6.9-14.4%;
- inflamação ativa moderada (endoscópica/histológica) após otimização da terapêutica médica;
- estenose cólica nos últimos 5 anos;
- displasia prévia nos últimos 5 anos;
- Colangite esclerosante primária (mesmo se após transplante hepático)

Baixo risco: deve ser realizada colonoscopia a cada 3 anos, nos doentes com pelo menos um de:

- risco de CCR aos 5 anos calculado de 3.6%-6.8%;
- inflamação ativa ligeira (endoscópica/histológica) após otimização da terapêutica médica;
- doença extensa (colite ulcerosa proximal ao ângulo esplénico ou doença de Crohn com mais de 50% de envolvimento do cólon ou inflamação em 3 ou mais segmentos do cólon);
- pseudopólipos inflamatórios;
- história de CCR em familiar de 1º grau independentemente da idade.
 
No caso dos doentes com inflamação controlada e sem outros fatores de risco, o risco é semelhante à população geral pelo que devem seguir o rastreio desse grupo, mas utilizando sempre como método de rastreio a colonoscopia.
 
Sandra Barbeiro
 
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Mesh in rectopexy: biological, synthetic, or hybrid?
Marije A. Boom · Esther C. J. Consten
 
Techniques in Coloproctology (2026) 30:8

https://doi.org/10.1007/s10151-025-03266-5
 
A Rectopexia ventral com prótese por via laparoscópica, descrita há mais de 20 anos por André D’Hoore, assumiu-se como a técnica cirúrgica de eleição no tratamento do prolapso rectal. 

No entanto, há várias controvérsias que permanecem por resolver, a começar pela escolha da prótese - biológica, sintética ou híbrida. 

Regista-se também uma elevada heterogeneidade noutras questões, desde os critérios de seleção dos doentes, à técnica de mobilização, fixação e material de sutura. 

Esta variabilidade na prática clínica pode afectar a interpretação dos resultados e é reveladora que a falta de consenso não se resume à escolha da prótese, mas estende-se à “cultura cirúrgica” e aos processos de decisão clínica. 

O consenso não irá emergir da preferência individual e tradição, mas sim da evidência científica. 

Até lá, a escolha da prótese permanece uma questão de julgamento e decisão individualizada.
 
José Assunção Gonçalves
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