A escleroterapia com polidocanol espuma conquistou um lugar de destaque na abordagem minimamente invasiva, eficaz e segura da doença hemorroidária (DH).
Reconhecemos na aplicação desta técnica uma melhoria rápida e mais prolongada da sintomatologia da doença hemorroidária, que se repercute de forma clara na qualidade de vida e satisfação do doente.
A par do crescente entusiasmo e recurso a esta técnica, é reconhecida grande variabilidade na sua aplicação em diferentes centros e entre especialistas.
O estudo que vos convido a conhecer,
Real-world use of polidocanol foam sclerotherapy for hemorrhoidal disease: insights from an international survey and systematic review with clinical practice recommendations.
Gallo G, Grossi U, De Simone V, Picciariello A, Diaco E, Fan P, He H, Li J, Lin H, La Torre M, Laforgia R, Lobascio P, Ma H, Pata F, Perinotti R, De Parades V, Pozzo M, Realis Luc A, Salgueiro P, Skowronski A, Sun P, Trompetto M, Tutino R, Wang C, Wang Z, Wang Z, Wu J, Zhang Y, Zhao S, Zeng X, Fernandes V, Moser KH, Ren D, Sileri P, Gravante G.
Updates Surg. 2025 Jun 6.
doi: 10.1007/s13304-025-02258-2. Epub ahead of print. PMID: 40481245
apresenta a primeira revisão sistemática que combina a evidência científica
(sobre as indicações, os aspetos técnicos, a abordagem pré e pós-procedimento, e os outcomes clínicos) da escleroterapia com polidocanol espuma, com a experiência clínica de um grupo internacional de especialistas – o “International Sclerotherapy Group (IST)”.
Deste estudo Delphi surgiram, pela primeira vez, várias recomendações clínicas baseadas na evidência dedicadas à aplicação desta técnica.
O estudo Delphi consolida a escleroterapia com polidocanol espuma como técnica de 1ª linha na abordagem da doença hemorroidária graus I-III da classificação de Goligher.
Na DH grau III a maioria dos especialistas confirma o benefício da técnica sobretudo em doentes idosos e com comorbilidades significativas.
Na DH grau IV, esta técnica pode permitir alívio sintomático e pode ser utilizada como ponte para intervenção cirúrgica.
Relativamente aos aspetos técnicos da preparação do polidocanol, o estudo Delphi validou de forma consensual o uso de polidocanol líquido a 3% e o método de Tessari para gerar a espuma, injeção individualizada de 2-4cc de espuma por pedículo (consoante grau de doença), num volume total de 6-14 mL por sessão.
Em termos de eficácia, os estudos comparativos demonstraram de forma consistente a superioridade da escleroterapia com polidocanol espuma relativamente ao “gold-standard” laqueação elástica (LE), com taxas globais de sucesso terapêutico de, respetivamente, 88.3% e 66.7%.
Não obstante a ausência de uma definição uniformizada de sucesso terapêutico, este foi primariamente definido atendendo aos “patient-reported outcomes” (em 80%) e complementada por anuscopia (em ~70%) para confirmar resolução vs avaliar persistência de sintomas.
Esta técnica demonstrou também uma expressiva redução da taxa de recorrência (16.1% vs. 41.2% na LE) e uma menor taxa global de eventos adversos (10.0% vs 30.0% LE). A dor pós-procedimento foi o evento adverso mais reportado (em 8%), sendo maioritariamente ligeira e autolimitada. A hemorragia rectal ocorreu em 2.8%, sendo significativa e implicando vigilância hospitalar em 0.2%.
Aborda-se a possibilidade de combinar as técnicas de injeção de polidocanol espuma com a laqueação elástica (“sclero-banding”, geralmente laqueação elástica seguida de injeção de polidocanol espuma no pedículo laqueado), em doentes sem risco hemorrágico aumentado.
Os aspetos de maior variabilidade no estudo Delphi foram o contexto clínico do procedimento (ambulatório, em consulta vs ambulatório, no bloco cirúrgico vs bloco cirúrgico, internamento), a preparação intestinal prévia, o recurso/ tipo de anestesia, bem os aspetos técnicos da injeção da espuma de polidocanol (intralesional vs submucosa).
O estudo destaca o consenso relativamente à aplicação da eslceroterapia com polidocanol espuma em subgrupos vulneráveis, nomeadamente doentes idosos, com comorbilidades significativas, e com alterações da coagulação (primárias ou induzidas por fármacos).
Aqui reside fundamentalmente a mudança de paradigma trazida por esta técnica: a possibilidade de tratar com mais eficácia, mais segurança, e proporcionar melhor qualidade de vida aos doentes, incluindo subgrupos vulneráveis com contraindicação a outras terapêuticas instrumentais e cirúrgicas.
É necessária mais evidência para ajustar aspetos técnicos como a dosagem ótima para os melhores resultados, a relação da dose com o tempo até à recidiva, a seleção de doentes para terapêutica combinada “sclero-banding”, e sobretudo a possibilidade de aplicar a escleroterapia com polidocanol espuma a um espectro cada vez mais alargado de subgrupos vulneráveis.
Paulo Salgueiro MD, PhD