SÓCIOS
Abril 2025

Artigos do Mês – Abril 2025
Utilização dos inibidores da JAK no tratamento da colite ulcerosa aguda grave
 
Referência bibliográgica: Gisbert JP, Chaparro M. Janus kinase inhibitors in the management of acute severe ulcerative colitis: a comprehensive review. J Crohns Colitis. 2025 Feb 4;19(2):jjaf021. doi: 10.1093/ecco-jcc/jjaf021. PMID: 39886994.
 
A colite ulcerosa (CU) aguda grave (ASUC acute severe ulcerative colitis) ocorre em 20% dos doentes com CU, ao longo da vida. Com a introdução da corticoterapia endovenosa e da colectomia semi-eletiva aquando da falência da terapêutica médica de regaste, assistiu-se a uma redução drástica da mortalidade de 70% para < 1%. Apesar deste avanço significativo, o infliximab e a ciclosporina continuam a ser as únicas terapêuticas de resgaste aprovadas, e as taxas de colectomia têm-se mantido estáveis nos 30-40%. Os inibidores da JAK, pelo seu rápido início de ação e pela sua eficácia em doentes bio-experimentados, têm emergido como uma terapêutica promissora neste contexto.

No artigo de Gisbert J. e Chaparro M. estes autores apresentam uma revisão narrativa muito completa e didática sobre o papel dos inibidores da JAK na ASUC, baseada em artigos publicados até outubro de 2024. Foram incluídos 40 estudos, a maioria retrospetivos (apenas um ensaio aleatorizado com tofacitinib), referentes a 373 doentes tratados com tofacitinib e 74 doentes com upadacitinib. Sem dados publicados sobre o uso de filgotinib. Como esperado, a maioria dos doentes tinha exposição prévia a anti-TNFa. A eficácia do tofacitinib e do upadacitinib foi similar, com taxas livres de colectomia na ordem dos 80%, tendo o tempo de seguimento variado entre 1 e 24 meses. Os principais efeitos adversos foram as infeções, não parecendo haver um risco aumentado de complicações pós-operatórias.

Os inibidores da JAK são uma “novidade” há muito esperada na terapêutica médica da ASUC, sendo possível utilizá-los hoje, em casos selecionados multidisciplinarmente em centros de referência de DII.
Alguns aspetos interessantes permanecem por esclarecer: (1) poderão estes medicamentos ser utilizados em primeira linha, em substituição dos corticosteroides? (2) serão no futuro uma terapêutica de resgaste alternativa ao infliximab e à ciclosporina? particularmente relevante em doentes previamente expostos a biológicos; (3) será possível aumentar a taxa de resposta à corticoterapia endovenosa, através da sua combinação com os inibidores da JAK? Os ensaios SMART, TRIUMPH e TOCASU, são alguns dos estudos atualmente a decorrer, que nos ajudarão a responder a algumas destas questões.
 
Autores: Madalina Gututui, Lídia Roque Ramos
 
Abstract
Background: One-third of patients with acute severe ulcerative colitis (ASUC) are steroid-refractory. Cyclosporine and infliximab are currently the mainstays of salvage therapy. Janus kinase inhibitors (JAKi) could play a role in the treatment of ASUC.

Aim: To review the evidence on JAKi in the management of ASUC.

Methods: We performed a bibliographic search to identify studies focusing on the treatment of ASUC with JAKi.

Results: Potential advantages of JAKi for the management of ASUC include their oral administration, rapid onset of action, short half-life, lack of immunogenicity, and effectiveness in patients with prior biologic exposure. Thirty studies (including 373 patients) have evaluated the efficacy of tofacitinib in ASUC, with a response rate (avoidance of colectomy) ranging between 43% and 100%, with a weighted mean of 82%. Experience with upadacitinib is more limited (only 10 studies and 74 patients are available) but also encouraging: mean colectomy-free rate ranging between 67% and 100%, with a weighted mean of 79%. However, experience with filgotinib in ASUC is currently nonexistent. Regarding safety, the available data does not reveal any new safety concerns when JAKi are used in ASUC, although follow-up periods are still short.

Conclusion: JAKi seems to be a promising treatment option for ASUC, with both tofacitinib and upadacitinib achieving colectomy-free rates of approximately 80%. Further studies are essential to define whether JAKi can replace cyclosporine/infliximab as second-line therapy for the medical management of ASUC, or whether they can even be used as initial treatment in place of intravenous corticosteroids.

Key words: acute severe ulcerative colitis; anti-TNF; inflammatory bowel disease; JAK inhibitors; tofacitinib; ulcerative colitis; upadacitinib.
 
Sugestões de como obter o artigo de forma oficial:
- Se for sócio da European Crohn and Colitis pode descarregar gratuitamente
- Enviando a referência do artigo para os serviços bibliotecários do seu hospital ou da universidade de Medicina que frequentou, será de fácil acesso
 
Lídia Ramos
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Impact of Surgeon Specialization on Outcomes in Emergency Colorectal Surgery: A Systematic Review and Meta-analysis
 
DISEASES OF THE COLON & RECTUM VOLUME 68: 1 (2025)
 
DOI: 10.1097/DCR.0000000000003418

Visual Abstract:
 
 
Introdução e objectivos: :
Este trabalho teve como objetivo avaliar o impacto da especialização em cirurgia colorrectal nos resultados clínicos de doentes submetidos a cirurgia de resseção em contexto de urgência.
Para tal, foi realizada uma revisão sistemática com metanálise, de acordo com as orientações PRISMA, utilizando três bases de dados distintas.
 
Critérios de inclusão e outcomes primários e Secundários:
Foram incluídos estudos que comparavam doentes submetidos a resseção colorrectal de urgência por cirurgiões com e sem especialização em cirurgia colorrectal.
 
  • Outcome primário: Mortalidade (intra-hospitalar e aos 30 dias)
 
  • Outcomes secundários: Deiscência anastomótica, necessidade de re-intervenção, realização de anastomose primária e abordagem laparoscópica
Resultados:
 
21 estudos  cumpriram os critérios de inclusão.
 
  • Menor mortalidade aos 30 dias: OR 0.64; p < 0.0001
  • Menor mortalidade intra-hospitalar: OR 0.66; p = 0.007
  • Maior taxa de anastomose primária: OR 2.95; p < 0.0001
  • Menor taxa de formação de estomas: OR 0.52; p = 0.04
  • Maior uso da via laparoscópica: OR 2.38; p = 0.001
 
Não foram observadas diferenças estatisticamente significativas na:
 
  • Taxa de deiscência anastomótica: OR 0.70; p = 0.10
  • Taxa de reintervenção: OR 0.78; p = 0.16
 
Conclusão:
Apesar da heterogeneidade dos estudos incluídos e das diversas definições de "cirurgião colorrectal", os autores concluem que a resseção colorrectal de urgência realizada por cirurgiões especializados está associada a:
 
  • Redução da mortalidade
  • Menor taxa de estomas
  • Maior frequência de anastomoses primárias
  • Maior adoção da abordagem minimamente invasiva
 
A qualidade metodológica da revisão, com avaliação da qualiudade dos estudos através da escala Newcastle-Ottawa, contribui para a robustez das conclusões, apesar das limitações identificadas.
 
Reflexão:
A cirurgia colorrectal de ressecção em contexto de urgência representa um desafio para qualquer cirurgião, independentemente da sua especialização.
As taxas de mortalidade, que variam entre 4% e 20%, reforçam a gravidade deste contexto clínico.
 
Os melhores resultados observados quando a cirurgia é realizada por cirurgiões colorrectais poderão refletir sobretudo uma maior acuidade na tomada de decisão — mais do que diferenças na execução técnica do procedimento. A especialização em cirurgia colorrectal traduz-se também numa abordagem criteriosa e individualizada, considerando a patologia de base, as comorbilidades e a real necessidade de ressecção urgente.
 
Este estudo sublinha a importância da diferenciação técnica e de tomada de decisão, salientando que a especialização em cirurgia colorrectal tem impacto direto e mensurável nos resultados clínicos dos doentes tratados em contexto de urgência.
 
 
Miguel Cunha
 
Grupo de Cirurgia Colorrectal, Unidade Local de Saude Do Algarve – Portimão
MD
PhD Candidate
FEBS-C
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